segunda-feira, 14 de junho de 2010

Triste sociedade a nossa.


Eça de Queiroz sabia o que escrevia e porque escrevia, pena é que depois de tantos anos a estudarmos as suas obras não tenhamos aprendido nenhuma lição.
Vejamos alguns relatos do capítulo IV dos Maia onde mostra como era a sociedade lá no século dezanove.

Carlos da Maia vai para Coimbra “estudar.
Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, as folhas intactas e os seus expositores de medicina.
No segundo ano levaria um R de reprovado se não fosse tão conhecido e rico.
Ega seu amigo estava a formar-se em Direito, mas devagar, muito pausadamente ora reprovado, ora perdendo o ano.
Carlos da Maia quando terminou a universidade partiu para a sua longa viagem pela Europa. Um ano foi o tempo dessa viagem. Quando voltou o avô, cujo olhar risonho e húmido transbordava de emoção, todo se orgulhava de o ver, de o ouvir, numa larga veia, falando da viagem...
            — E agora? — Perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silêncio em que Carlos estivera bebendo o seu conhaque e soda. — Agora que tencionas tu fazer?
            — Agora, general? — Respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional!

Carlos monta um consultório no Rossio, mobilado com todo o luxo, onde depois nas horas de trabalho, dormitava sob o Diário de Notícias. Outras vezes pegava numa revista, e estendia-se no divã. A prosa, porém, dos artigos estava como embebida do tédio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume.
            Já o Rossio, era interessante havia, o ruído das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, numa vibração mais clara, por aquele ar fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul-ferrete, vinha dourar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores do município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar aveludado de clima rico, parecia ir penetrando pouco a pouco naquele abafado gabinete e resvalando pelos veludos pesados, pelo verniz dos móveis, envolver Carlos numa indolência e numa dormência...

Engraçado não é, parece que este nosso triste paraíso à beira mar plantado não mudou nadinha, nem depois de tantos estudos sobre os Maias, nada mudou. Estamos condenados a ser preguiçosos e vadios. 
Será que os nossos intelectuais e governantes nada aprenderam da matéria estudada?  
Se sim, e Eu acredito que sim, provavelmente até tiveram boas notas nos resumos dos resumos resumidos dos Maias, porque não ensinam outros? 
Ninguém diria que em séculos passados fomos uma potência, descobridores do mundo à nossa volta, para onde é que foi parar toda essa garra de conquistar mundo?  
Emanuel Santos

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